janeiro 03, 2013
Decisões mais que sistemáticas
Os dias não clareiam as minhas dúvidas, e minhas perguntas tornam-se cada vez mais repletas de confusão quando você insiste em ignorar meus apelos pela verdade. Eu imploro por repostas, mas você continua mudo, sugando-me com seus olhos de gato. Você espera por um ataque, prepara-se para uma defesa desnecessária.
Eu não tenho medo. Não desta vez. Serei eu, e somente eu. Não há nós. Não estamos juntos nesta guerra, porém não quero ser sua inimiga. Desejo a paz entre nossos corações inquietos. Mas eu falo, argumento e escuto. Onde estão seus recortes de sinceridade?
Minha cicatrizes são velhas e não há luta que possa reabri-las. Eu não tenho medo. Eu sou leal a minhas ideias e não corro do futuro. Eu anseio o perfume da liberdade. Eu compreendo que não há força terrestre que fará mudanças em seus pensamentos, mas sou eu quem controla meus atos e não você. Acabou o jogo de comando. Acabaram-se os tempos de submissão.
Um dia pedi que me ensinasse a ser paciente, e você negou meu pedido. Pois, muito bem, eu não preciso mais de paciência.
Serei eu, e somente eu.
"I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try"
dezembro 22, 2012
Fiel anatomia
Sintonizar
as redes do sistema, uma por uma. Não deixar rastros de falcatruas
acumuladas nas paredes internas. Apagar
o amor e suas demais demonstrações de afeto. Baixar crueldade, ambição,
luxúria, ira, avareza, egoísmo. Conectá-los as ondas suplementares do coração
de lata e deixar que um líder os conduza à destruição.
Perfeito.
Eu criei uma cópia do ser humano.
novembro 29, 2012
Mentirosa
Ela nem se preocupa em limpar o próprio veneno, que escorre
doce pelos lábios flamejantes. Intoxicante. Desejável acima de qualquer outro.
Como eu quero ouvir suas mentiras, acreditar em cada uma delas e sentir o
êxtase de ser enganada. Como quero sofrer o choque da verdade, da realidade, e
sentir o amargo mel correr pelas minhas veias e paralisar as minhas ideias.
Tão mentirosa. Tão venenosa. Tão deliciosa.
Sugue a minha inocência e faça de mim uma cobra leitosa,
assim como você.
novembro 20, 2012
Devagarzinho se vai longe
O
tempo nos passa rápido demais. Não porque o tempo em si esta com pressa, mas
porque nós cogitamos uma ansiedade sob qualquer circunstância de paz de que o
tempo que Deus nos deu para nossos dias é excepcionalmente curto.
Esta
manhã levei meus filhos ao zoológico da cidade. Um local agradável para ensinar
as crianças que o convívio com os animais é de extrema importância social. Tudo
ocorria muito bem, porém, por mais que eu tentasse evitar acreditar, notei a
impaciência de meus filhos. De inicio acreditei que fosse a ansiedade em
percorrer todo o parque e ver todos os animais possíveis, mas percebi que
estava enganado.
As
crianças tinham pressa, porque estão acostumadas com a rotina descompassada dos
pais. Inutilmente me ocorreu que a culpa de meus filhos serem impacientes para
com o tempo era minha. Em muitos momentos de nossas vidas deixamos de nos
preocupar com o pormenor, e nos propiciamos a ser práticos e improdutivos. Não
apreciamos ou se quer aproveitamos nosso tempo de maneira aceitável.
Foi
no meio desse turbilhão de choques emocionais que fiz uma analogia de minha
vida com a de uma tartaruga. Estabeleci em minhas ideias que vivemos em uma
correria desgovernada que nunca nos trazem boas e sólidas concretizações.
Obviamente muitos acreditam que no "não se sabe o dia de amanhã",
porém isto é um paradoxo que não tenho tempo para analisar, pois não vivo na
desenfreada de aproveitar os momentos. Apenas vivo.
As tartarugas tem uma
paciência nata. Elas não correm, e não sofrem a pressão do trabalho árduo.
Intuitivamente e sabiamente elas se locomovem no romantismo da lentidão,
analisando (ou não) cada gotícula de água ao seu redor.
Minha
afinidade com as tartarugas é devido a sua peculiar longa vida. Existem
espécimes que podem viver por mais de 100 anos. E basta olhar para uma que um
sentimento de serenidade, paz, ou até mesmo nostalgia nos invade e corrompe
qualquer pensamento sobre algo que nos esquecemos de fazer ou comprar. Levar em
consideração que tais bichinhos duram tanto tempo, vagueando por oceanos sem
nunca se apressar, é ainda mais cruel para os deficientes de tal privilégio
divino. O que nunca percebemos é que o stress de nossa correria tem se tornado
uma rotina, e classificado "normal".
As
tartarugas nunca foram vistas correndo, literalmente, e sua longevidade é mais
um motivo de comparação teórica. Eu acredito que estamos absurdamente enganados
e que deveríamos filtrar da genialidade de nossas crianças a grosseira ideia de
que o tempo é curto. Quem sabe desta forma não apreciaríamos uma vida de quase
200 anos de experiência? Poderíamos simplesmente aproveitar o ritmo desses
animais tão exóticos.
Então,
ainda esta com pressa?
(Crônica escrita para aulas de Redação).
novembro 02, 2012
157
Até que ponto reviver
o passado nos faz bem? Até onde podemos enganar-nos com mentiras
descaradas sobre nossa própria felicidade? Quais os aspectos
positivos? E os negativos?
É reconhecível que
tudo não passa de omissões para evitar dores maiores. O passado foi
bom, porque você foi outro. Os dias estão cada vez mais remotos, e
estamos nos acomodando com o habitual. Afinal de contas, por que
mudar se esta aceitável assim? É óbvio que reclamar os dias de
glória é muito mais fácil do que lutar para conquistar os novos.
A verdade é que estou
cansada. Tenho vontade de chorar e dizer a todos que penso muito mais
além do que eles podem ver em mim. A tristeza consome minha áurea
passível e mais que de repente eu me torno amarga, silenciosa, e
suja. Sinto as mentiras perfurarem minhas entranhas como ferro
retorcido, e a dor que invade meu corpo é muito menor do que a que
contamina minha alma.
Até que ponto eu
estarei sóbria para reconhecer meus erros? Até onde eu poderei
fingir que não enxergo o óbvio? Quais as vantagens de viver nas
sombras daquele que enfrenta?
Quando vou ser
liberta? Diga-me, pois é o que mais quero saber.
outubro 30, 2012
As vantagens de ser um perdedor
O ventilador na mesa de centro fazia um ruído engraçado
enquanto girava pela sala vazia, exceto por mim e a recepcionista que
tagarelava no telefone com alguma mulher chamada Carly.
Há meia hora eu tentava sem muito sucesso concentrar-me na
revista sensacionalista em meu colo. A capa era estampada com a foto de alguma
atriz que era criticada por ter engordado 8 quilos para a nova novela em que
interpretaria uma jovem que enfrenta bulimia. A manchete era escrita com
letras garrafais, e levava a seguinte frase: “Até onde a ganância pelo sucesso pode nos levar?”. É óbvio que a
moça era um estereótipo da mulher de hoje, mas nada era mais perturbador para
mim no momento do que o falatório descompassado da recepcionista.
Eu estava sentindo falta. Era isso o que sentia. Não
posso chamar de saudade, não. É a necessidade de poder usar, e ver-me livre
dos problemas, dos médicos e dos psiquiatras. Poder sorrir e não me preocupar
em prevenir a todos de que desta vez não irei perder o controle. Sorrir e
sentir o êxtase viajar por minhas veias.
Larguei a revista e procurei me concentrar nos pontinhos
pretos das cortinas. Nunca havia visto um tecido tão peculiar, e que parecesse
tão sujo e amarelo. Não me importei em fazer críticas mentais. Naquele momento eu apenas queria exercitar minha mente e esquecer os prazeres que estavam tão
longe de mim. Novamente, não obtive sucesso.
Ah, daria um doce para
fugir deste lugar.
Encostei a cabeça na parede atrás de minha cadeira
desconfortável. Explorei cada centímetro do teto cor de abóbora da clínica, e
depois cerrei os olhos. Ouvi meus próprios batimentos cardíacos, minha
respiração acelerada pela aflição; pela urgência em fumar um baseado qualquer. E ouvi o ventilador, e de repente aquele me pareceu ser o som mais agradável
que já ouvira.
Eu gostaria de ser como ele. Gostaria de repelir. Gostaria
de aliviar. Gostaria de ser um ser sem vida, que não causaria mais problemas.
Eu poderia ser o ventilador de teto da sala de estar dos meus pais, assim seria
um alguém inanimado, porém, presente. E poderia agraciá-los com um vento
refrescante quando sentissem calor, e eles sentiriam alivio. Seria muito mais
do que já fiz por eles até hoje.
Soltei um risinho baixo diante da minha demência. Engraçado
como eu parecia mais racional quando estava chapada.
Ouvi os sinos da porta soarem com veemência, despertando-me
de meus pensamentos com meus botões. Um homem entrou na sala. Era muito alto, e
usava uma camisa cinza por baixo da jaqueta de couro. Um jeans que parecia ser
extremamente caro e o último modelo (ou talvez não) de tênis lançado pela Nike
nos pés. Os cabelos eram castanhos, muito longos, e ele tinha sobrancelhas
naturalmente arqueadas, o que eu achava muito divertido em pessoas que
usufruíam dessa dádiva de Deus.
Seu nariz era pontudo, tinha sardas pequenas e um
tanto fofas demais para alguém de aparência tão abusiva. Os olhos eram azuis,
brilhantes como as estrelas. Sei que a comparação soou muito poética, mas seus
olhos eram brilhosos demais.
E também estavam vermelhos.
Senti uma tremenda vontade de rir. É claro que ninguém viria
a um psicólogo especializado em tratamentos de desintoxicação porque era um
puritano ou algo o tipo.
Ele focou seus olhos em mim quando percebeu minha presença. Suspirou
fundo e sentou-se ao meu lado. Talvez tivesse chegado cedo demais e não
estivesse a fim de papo. Mas ficou ali, entrelaçando os dedos nervosamente, sem
mexer qualquer outra parte do corpo. Típico.
Cruzei as pernas e voltei ao meu ritual de ventilador/quero
ser. Fechei os olhos novamente, e quando estava quase cochilando, senti algo
quente encostar-se a meu ombro. Presumi que o homem ao meu lado havia
endireitado a coluna, até que uma voz demasiadamente aveludada e
assustadoramente calma falou comigo.
“Eu gostaria de nunca ter que voltar aqui”.
“Eu também não.“ Confessei em um sussurro, ainda de olhos
fechados.
“Há quanto tempo você vem?” Talvez ele estivesse nervoso
demais e quisesse bater um papo para descontrair. Resolvi ser legal.
- Dois anos, sete meses e catorze dias. – Respondi, abrindo
os olhos e focando meus olhar em seu rosto amedrontado de menino, que tentava o
tempo todo parecer forte o suficiente para enfrentar tudo. Porém, ele não era.
Ninguém é. – Posso te dar as horas e os minutos também.
Ele soltou um sorriso nervoso, e desfez os laços das mãos.
Seu olhar procurou o meu, e percebi que ele não era um menino
amedrontado ou algo do tipo. Era um homem um tanto perturbado, mas a sua
aparência ao acusava. Não sei como sua mãe não o estava acompanhando.
- E você? – Arrisquei.
- Quatro meses. Não me lembro dos dias e nem das horas, mas
posso afirmar que nunca foi um passeio agradável. – Ele me estendeu a mão
esquerda. – Sou Zachary.
- Florence. – Deslizei meus dedos pela sua mão de dedos
longos. Trocamos um aperto de mão firme, e logo eu acabei com o toque.
- Engraçado. Nunca conheci alguém com seu nome. – Comentei,
enquanto admirava a fivela de minha sapatilha.
- Também nunca encontrei alguém com seu nome. Florence... –
Ele saboreou a palavra com muito mais doçura e ironia que o necessário, e eu
tive vontade de rir.
Ele voltou a curvar a coluna, e tirou do bolso da jaqueta um
isqueiro, e começou a brincar com o fogo que saia do objeto. Eu entendia o
nervosismo dele. Entendia bem demais.
- Você veio por vontade própria?
Eu achei que seria eu quem faria esta pergunta, mas Zachary apressou-se em formulá-la antes de mim. Não sabia se queria responder a essa
questão, mas não negava que era o que outro paciente perguntaria ao colega numa
sala de espera.
- Não.
Ele esperou, com os olhos fixos no fogo. Cogitei em avisá-lo
que olhar muito para o fogo causa estrabismo, ou era isso que minha mãe dizia
quando eu era pequena e brincava de acender fósforos.
- Meu pai me arrastou para uma clínica há alguns anos, e
agora que meu caso se tornou “estável”, faço as consultas mensais. – Murmurei,
pensando se já havia contado isso para alguém. Não conseguia me lembrar.
Ele riu, e eu franzi o cenho. Parou o isqueiro e
voltou-se para mim, mexas de seu cabelo caindo sobre seu rosto pálido. De
repente, o achei muito bonito.
- Eu vim por vontade própria. Já faz um tempo... Comecei com
o psicólogo há pouco tempo. Tudo tem sido muito insuportável, e às vezes a recaída
me leva até as bocadas de sempre. A vontade tem diminuído mais rápido do que eu
esperava, mas ainda não consigo controlar tudo como eu queria. Gostaria ter o poder de parar de torrar o dinheiro da família nessas merdas... Era mais fácil quando
eles nem notavam que eu existia... – Ele enroscou as mãos no cabelo, segurando
a cabeça num gesto exausto e culposo. Senti compaixão por ele. Há algum tempo
eu também me desesperava por umas gramas de êxtase. Aliás, até poucos minutos
eu sentia o peso da família em meus ombros, o peso de não dar orgulho aos pais,
a ninguém, nem a si próprio. Eu sabia o que Zachary estava sentindo. Eu sabia
exatamente o que dizer, e também sabia que ele não ia acreditar.
Pousei a minha mão em seu ombro. Talvez estivesse
protelando muito o ato, mas precisava reconfortar alguém que tinha a vontade de
se livrar dos temores, das crises e da alucinação temporária que o fazia feliz,
completo, ou talvez só lhe desse prazer suficiente por algumas poucas horas.
- Depois de um tempo, tudo fica bem. Fica mais claro e mais
fácil.
Ele olhou em meus olhos com tanta profundidade, que esperei
que ele se levantasse e desse-me um soco bem no meio da cara. Contudo, ele apenas moveu o queixo maciço, e formou
um pequeno sorriso agradecido com os lábios rosados. Senti um alívio repentino
pelo gesto dele em agarrar a minha mão, para logo depois soltar, um tanto
desajeitado, mas totalmente sincero.
Zachary e eu continuamos a nos ver depois daquele dia. Ele
me pagava um café na Street e eu lhe falava do meu trabalho de redatora na Orange,
uma revista nerd para adolescentes
curiosos e inteligentes. Zac gostava muito de ouvir sobre as matérias antes que
elas fossem publicadas, e nós debatíamos sobre os assuntos mais bizarros que
eram pesquisados para a revista.
Depois que eu contava tudo, ele me falava da faculdade.
Foi uma surpresa quando contou-me que havia retomado o curso de matemática.
Zachary adora números.
Um ano depois ele já estava mais acostumado ao psicólogo, e
eu já frequentava a clinica duas a quatro vezes ao semestre. Zachary melhorou seu
relacionamento com os pais. Eles já não davam mais dinheiro, e nem perguntavam
a ele como ele gastava seu salário de professor. E com o tempo, Zac levou-me
para conhecer seus pais e irmãos, e pude perceber o quanto sua família era
rica e totalmente aconchegante.
Sempre questionei a mim mesma o porquê de ter sido uma
usuária. Minha família era simples, porém sempre fui rodeada de carinho e atenção
o suficiente para evitar as festas e os amigos errados. Talvez Zac fosse
agraciado com o mesmo, somado ao dinheiro que obtinha a qualquer hora.
Depois de alguns poucos verões, nos mudamos para um "apartamentinho" apertado em Manhattan, que era o suficiente para que nós fizéssemos de lá o
nosso lar. Rolávamos de sofá à tapete, fazendo amor até o dia clarear, e pela
primeira vez em anos, eu me sentia completa. Sem o prazer fugaz, a alegria momentânea e a adrenalina em fazer loucuras que me poderiam por-me na cadeia.
Minha garganta não estava seca. Eu não suava frio. Eu não
ansiava o momento em que usufruiria da droga. Eu sentia a liberdade como uma
brisa gelada a bater em meu rosto. Eu vivia os momentos mais simples de minha
vida que quase havia sido jogada fora pela própria dona. E eu finalmente sentia
que os tons da minha felicidade eram muito, muito mais prazerosos. Eu nunca
trocaria o bom pelo nada.
E Zachary estava comigo. Isso era o que realmente me
importava.
outubro 15, 2012
Tato
Nada poderia ser mais prazeroso
do que deslizar meus dedos sobre elas. Eu tocava suas brancas e pretas, e ela
suplicava que eu continuasse, pedindo clemência nos sons que emitirá. Os
grunhidos que perturbavam o meu controle, e roubavam a pouca decência que tinha
até sentar-me a frente delas.
Deixei que minha mão esquerda as
torturasse. Com uma força mais abrupta, eu a fiz gritar no grave. E depois eu a
acometi de delicadeza. O fulgor de nossa relação não cabia em mim. Toquei com rapidez,
sugeri movimentos que nem eu mesmo sabia que era capaz de realizar, e no gozo
das brancas e pretas, eu fiz uma pausa. Um remake
de nosso pecado silencioso. Não deixaria de tocá-las, de fazê-las gritar
sob meus dedos.
E a suavidade que preenchia os
meus ouvidos era mais que essencial, era perfeita. Eu sofria da decadência de
possuí-las. Eu desejava acima de qualquer outro sonho, tocá-las. Eu voltava com
loucura, em total transe de paixão. Deixava as minhas marcas feitas pela força
de minha vontade, e no fim eu sabia o que era o meu sentimento antes oprimido.
Eu era a música. Eu fazia música.
O prazer de tocar minhas teclas estava num pedestal acima de qualquer outro
para mim. Eu pecava com o piano, e fazia a heresia soar para todos que
quisessem ouvi-la.
Eu amava a música. Amava as
pretas e brancas, que cantavam sob meu toque.
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