maio 12, 2014

Os pêsames de um marciano

Nasci de uma fagulha de prazer cristão
Numa pátria esquecida no seio do Tártaro
Com o caminho traçado no desapego da opinião

Um suicida sem causa, rebelde por adolescência
Marcado pelo riso e pela descrença
Impróprio de julgamentos, feito de inocência

Uma vez um sabe nada de sotaque interiorano
Me disse que não se deve pedir arrego da vida
E que se Deus atendesse minhas preces
É porque nem existir ele existia

Nenhum absinto satisfaz um pernilongo madrugado
Nenhum doce apetece uma criança salgada
Virei prisioneiro de minha mortalidade
Fingindo amavelmente uma vivacidade calorosa

E a fagulha se desfaz num sopro
Fluindo na perdição do vento
Sem deixar saudade, sem deixar herdeiros
Finalmente suprindo sua necessidade

junho 01, 2013

Como um pássaro na gaiola

Depois de muito remoer minhas mágoas, decidi que é chegado o momento de implorar pela morte. Estou farto de sentir tanta dor, e de não poder ser aquele que fui. Ser aquele que tanto amei ser; um alguém inconfundível em meio a esta multidão tão escassa de bons sentimentos.  Meu olhar pode ser encontrado no além de um horizonte qualquer, algum lugar onde haja a liberdade divina.
Hoje o meu maior desejo é a vingança. É destruir meus monstros. É condenar aqueles que me encarceraram nesta prisão sem chave e sem luz, à tortura eterna. Tortura que vivo dentro deste caixote de lembranças. Estraçalhar o pescoço daqueles que cortaram minhas asas, e por fim sentir o perfume da vitória. Então espero, sinceramente, sentir uma alegria infinita ao sair deste calabouço de pedra, e dentro de minhas condições imutáveis, reviver.
Somente desta forma, e tão somente só, minha consciência estaria dividida entre meus pecados e glórias, dando uma continuidade infinita para meu tormento. E para que se possa compreender melhor minha dor, quero que eles saibam a verdade. Quero que saibam que quando eu finalmente estiver em paz, ainda não poderei voar. Minhas asas foram cortadas em partes, para que no fim eu mesmo concluísse uma autocondenação a solidão  Para que no fim eu sentisse o arrependimento, e o sofrimento do pesar de uma consciência inabalável tornar-se frágil e facilmente atingível.
Eles me queriam atormentado, não morto.
Queriam-me engaiolado.  

maio 01, 2013

Nina


Quando ela passa por mim com seu perfume de água, sorrindo forçosamente e presenteando todos com seu “Bom dia” alegre, eu consigo sentir o abismo que há entre nós. Deixo que ela olhe-me com seus olhos sem cor, os mais insinceros que finjo já ter visto, e devore-me com sua espontaneidade acumulada de dias infelizes e cinzas.

 Querida Nina, se você soubesse como quero saber a verdade...

Eu a observo todos os dias, a vejo cometer suas gafes e rir de seus problemas. Espero que nunca arranje um namorado ou beba um drinque sacana. Eu espero ansiosamente que ela diga “até logo” no fim do dia. Mas acabou, esqueceu.

Nina querida, seja sincera...

Pela primeira vez a vi chorar. Soluçante como uma criança, com a boca coberta pelas mãos. Não havia lágrimas, apenas o sentimento de profunda dor. Suas emoções sempre contagiam a todos. Sempre. E no momento em que a abracei, senti minha camisa ser molhada pela água que escorria lenta dos olhos, enfim verdes, dela.
Ela brilhou de forma figurativa em minha mente. Por alguns minutos eu senti a eternidade em meu futuro como um todo, um total de mentiras que construí por toda a minha vida. A única verdade era que Nina não era uma inverdade. Ela nunca realmente foi o que eu considerava um alguém repleto de insuficiência.
Nina poderia ser apenas Nina, ou poderia ser minha Nina, exatamente igual à primeira, ou a segunda, ou uma terceira...

Não chore mais, minha querida...

Sempre fecho os olhos quando estou com ela, e ouço-a rir de minhas crenças. Quando reabro as pálpebras, vejo-a na mesma posição, com o rosto apoiado nas mãos, sorrindo com os olhos insinceros, esperando por um beijo meu.
Se soubesse o quanto desacreditei em suas palavras quando resolveu ser apenas ela. E o quanto me forcei a fingir estar bravo ao me provar o contrario, quando na verdade queria rir e dizer-lhe que a amo. Porém, não seria tão divertido.
Posso até adivinhar a cara que ela faz quando escreve suas histórias, suas crônicas, e seus poemas sobre nós. 

março 29, 2013

Temporariamente morta


Estou temporariamente alienada. Temporariamente desiludida, perdida, esquecida. Temporariamente afastada, isolada, abandonada. Temporariamente fora, fechada, focada.
O que menos quero neste instante é lutar. Estou temporariamente desistindo de viver, para que possa entender o que quero, o que estou fazendo, e quais são os ideais pelos quais lutarei.
Não pergunte. Não questione. Apenas certifique-se de que estou temporariamente mal. 

fevereiro 13, 2013

Mergulho


Lembro-me que foi um salto muito alto e sonoro. Senti o vento arrebentar meu rosto assustado, e cegar-me temporariamente para o que não estava de baixo dos meus pés. Meus lábios ficaram secos, meus olhos semicerrados e uma sensação de asco me subiu pela garganta.
O Sol brilhava zombeteiro enquanto eu caía para o nada, e, no meio de todo daquele calor, eu senti frio. Senti vontade de enrolar-me no mais quente de meus cobertores, e jamais abandonar a aconchegante segurança que aquilo me proporcionaria.
Depois tudo ficou azul. Num baque surdo eu mergulhei para as profundezas do infinito. Lembro-me de mais detalhes do que posso descrever, porém, é fácil recordar o arrepio que a água congelante causou em meu corpo. Uma frieza que ferveu meus temores, e os reduziu à liberdade. E jamais esquecerei do grito que explodiu em minha garganta quando inspirei o ar acima da superfície.
Eu era o único.
Eu fui o infinito.

janeiro 09, 2013

Seu amor


Toque aquela música para meus ouvidos, querido. Sinto saudades de dançar enquanto você desliza seus dedos longos pelo nosso piano de madeira velha, brincando com meus sentimentos, sorrindo ao perceber a minha confusão.
Tudo era brilhante, até seus olhos de fogo grego.  Até quando você largava tudo e corria comigo, e gargalhava. Eu amo tanto os seus cabelos, cheio de cachos negros, cheios de você. Adoro beijar seus lábios vermelhos, e tocar sua baba rala por todo meu rosto.
O mais importante é fechar olhos, sentir você, e saber que não é uma ilusão ou um sonho. O mais importante é ter seu amor, sua luz e saber que minha vida é sua. Ter absoluta consciência de que somos um, e não ter medo.

"Wait forever for your love
Make believe that we're the only ones
Holding on whisper of your love
All we are is a dream beyond the dawn"

janeiro 03, 2013

Decisões mais que sistemáticas


Os dias não clareiam as minhas dúvidas, e minhas perguntas tornam-se cada vez mais repletas de confusão quando você insiste em ignorar meus apelos pela verdade. Eu imploro por repostas, mas você continua mudo, sugando-me com seus olhos de gato. Você espera por um ataque, prepara-se para uma defesa desnecessária.
Eu não tenho medo. Não desta vez. Serei eu, e somente eu. Não há nós. Não estamos juntos nesta guerra, porém não quero ser sua inimiga. Desejo a paz entre nossos corações inquietos. Mas eu falo, argumento e escuto. Onde estão seus recortes de sinceridade?
Minha cicatrizes são velhas e não há luta que possa reabri-las. Eu não tenho medo. Eu sou leal a minhas ideias e não corro do futuro. Eu anseio o perfume da liberdade. Eu compreendo que não há força terrestre que fará mudanças em seus pensamentos, mas sou eu quem controla meus atos e não você. Acabou o jogo de comando. Acabaram-se os tempos de submissão.
Um dia pedi que me ensinasse a ser paciente, e você negou meu pedido. Pois, muito bem, eu não preciso mais de paciência.
Serei eu, e somente eu.



"I thought that I heard you laughing
I thought that I heard you sing
I think I thought I saw you try"




dezembro 22, 2012

Fiel anatomia


                Sintonizar as redes do sistema, uma por uma. Não deixar rastros de falcatruas acumuladas  nas paredes internas. Apagar o amor e suas demais demonstrações de afeto. Baixar crueldade, ambição, luxúria, ira, avareza, egoísmo. Conectá-los as ondas suplementares do coração de lata e deixar que um líder os conduza à destruição.
                Perfeito. Eu criei uma cópia do ser humano. 

novembro 29, 2012

Mentirosa


Ela nem se preocupa em limpar o próprio veneno, que escorre doce pelos lábios flamejantes. Intoxicante. Desejável acima de qualquer outro. Como eu quero ouvir suas mentiras, acreditar em cada uma delas e sentir o êxtase de ser enganada. Como quero sofrer o choque da verdade, da realidade, e sentir o amargo mel correr pelas minhas veias e paralisar as minhas ideias.
Tão mentirosa. Tão venenosa. Tão deliciosa.  
Sugue a minha inocência e faça de mim uma cobra leitosa, assim como você. 

novembro 20, 2012

Devagarzinho se vai longe

O tempo nos passa rápido demais. Não porque o tempo em si esta com pressa, mas porque nós cogitamos uma ansiedade sob qualquer circunstância de paz de que o tempo que Deus nos deu para nossos dias é excepcionalmente curto.

Esta manhã levei meus filhos ao zoológico da cidade. Um local agradável para ensinar as crianças que o convívio com os animais é de extrema importância social. Tudo ocorria muito bem, porém, por mais que eu tentasse evitar acreditar, notei a impaciência de meus filhos. De inicio acreditei que fosse a ansiedade em percorrer todo o parque e ver todos os animais possíveis, mas percebi que estava enganado.

As crianças tinham pressa, porque estão acostumadas com a rotina descompassada dos pais. Inutilmente me ocorreu que a culpa de meus filhos serem impacientes para com o tempo era minha. Em muitos momentos de nossas vidas deixamos de nos preocupar com o pormenor, e nos propiciamos a ser práticos e improdutivos. Não apreciamos ou se quer aproveitamos nosso tempo de maneira aceitável.

Foi no meio desse turbilhão de choques emocionais que fiz uma analogia de minha vida com a de uma tartaruga. Estabeleci em minhas ideias que vivemos em uma correria desgovernada que nunca nos trazem boas e sólidas concretizações. Obviamente muitos acreditam que no "não se sabe o dia de amanhã", porém isto é um paradoxo que não tenho tempo para analisar, pois não vivo na desenfreada de aproveitar os momentos. Apenas vivo.
As tartarugas tem uma paciência nata. Elas não correm, e não sofrem a pressão do trabalho árduo. Intuitivamente e sabiamente elas se locomovem no romantismo da lentidão, analisando (ou não) cada gotícula de água ao seu redor.
           
Minha afinidade com as tartarugas é devido a sua peculiar longa vida. Existem espécimes que podem viver por mais de 100 anos. E basta olhar para uma que um sentimento de serenidade, paz, ou até mesmo nostalgia nos invade e corrompe qualquer pensamento sobre algo que nos esquecemos de fazer ou comprar. Levar em consideração que tais bichinhos duram tanto tempo, vagueando por oceanos sem nunca se apressar, é ainda mais cruel para os deficientes de tal privilégio divino. O que nunca percebemos é que o stress de nossa correria tem se tornado uma rotina, e classificado "normal".

As tartarugas nunca foram vistas correndo, literalmente, e sua longevidade é mais um motivo de comparação teórica. Eu acredito que estamos absurdamente enganados e que deveríamos filtrar da genialidade de nossas crianças a grosseira ideia de que o tempo é curto. Quem sabe desta forma não apreciaríamos uma vida de quase 200 anos de experiência? Poderíamos simplesmente aproveitar o ritmo desses animais tão exóticos.

Então, ainda esta com pressa?



(Crônica escrita para aulas de Redação).

novembro 02, 2012

157


Até que ponto reviver o passado nos faz bem? Até onde podemos enganar-nos com mentiras descaradas sobre nossa própria felicidade? Quais os aspectos positivos? E os negativos?
É reconhecível que tudo não passa de omissões para evitar dores maiores. O passado foi bom, porque você foi outro. Os dias estão cada vez mais remotos, e estamos nos acomodando com o habitual. Afinal de contas, por que mudar se esta aceitável assim? É óbvio que reclamar os dias de glória é muito mais fácil do que lutar para conquistar os novos.
A verdade é que estou cansada. Tenho vontade de chorar e dizer a todos que penso muito mais além do que eles podem ver em mim. A tristeza consome minha áurea passível e mais que de repente eu me torno amarga, silenciosa, e suja. Sinto as mentiras perfurarem minhas entranhas como ferro retorcido, e a dor que invade meu corpo é muito menor do que a que contamina minha alma.
Até que ponto eu estarei sóbria para reconhecer meus erros? Até onde eu poderei fingir que não enxergo o óbvio? Quais as vantagens de viver nas sombras daquele que enfrenta?
Quando vou ser liberta? Diga-me, pois é o que mais quero saber.  


outubro 30, 2012

As vantagens de ser um perdedor


O ventilador na mesa de centro fazia um ruído engraçado enquanto girava pela sala vazia, exceto por mim e a recepcionista que tagarelava no telefone com alguma mulher chamada Carly.
Há meia hora eu tentava sem muito sucesso concentrar-me na revista sensacionalista em meu colo. A capa era estampada com a foto de alguma atriz que era criticada por ter engordado 8 quilos para a nova novela em que interpretaria uma jovem que enfrenta bulimia. A manchete era escrita com letras garrafais, e levava a seguinte frase: “Até onde a ganância pelo sucesso pode nos levar?”. É óbvio que a moça era um estereótipo da mulher de hoje, mas nada era mais perturbador para mim no momento do que o falatório descompassado da recepcionista.
Eu estava sentindo falta. Era isso o que sentia. Não posso chamar de saudade, não. É a necessidade de poder usar, e ver-me livre dos problemas, dos médicos e dos psiquiatras. Poder sorrir e não me preocupar em prevenir a todos de que desta vez não irei perder o controle. Sorrir e sentir o êxtase viajar por minhas veias.
Larguei a revista e procurei me concentrar nos pontinhos pretos das cortinas. Nunca havia visto um tecido tão peculiar, e que parecesse tão sujo e amarelo. Não me importei em fazer críticas mentais. Naquele momento eu apenas queria exercitar minha mente e esquecer os prazeres que estavam tão longe de mim.  Novamente, não obtive sucesso.

Ah, daria um doce para fugir deste lugar.

Encostei a cabeça na parede atrás de minha cadeira desconfortável. Explorei cada centímetro do teto cor de abóbora da clínica, e depois cerrei os olhos. Ouvi meus próprios batimentos cardíacos, minha respiração acelerada pela aflição; pela urgência em fumar um baseado qualquer. E ouvi o ventilador, e de repente aquele me pareceu ser o som mais agradável que já ouvira.
Eu gostaria de ser como ele. Gostaria de repelir. Gostaria de aliviar. Gostaria de ser um ser sem vida, que não causaria mais problemas. Eu poderia ser o ventilador de teto da sala de estar dos meus pais, assim seria um alguém inanimado, porém, presente. E poderia agraciá-los com um vento refrescante quando sentissem calor, e eles sentiriam alivio. Seria muito mais do que já fiz por eles até hoje.
Soltei um risinho baixo diante da minha demência. Engraçado como eu parecia mais racional quando estava chapada.

Ouvi os sinos da porta soarem com veemência, despertando-me de meus pensamentos com meus botões. Um homem entrou na sala. Era muito alto, e usava uma camisa cinza por baixo da jaqueta de couro. Um jeans que parecia ser extremamente caro e o último modelo (ou talvez não) de tênis lançado pela Nike nos pés. Os cabelos eram castanhos, muito longos, e ele tinha sobrancelhas naturalmente arqueadas, o que eu achava muito divertido em pessoas que usufruíam dessa dádiva de Deus.
Seu nariz era pontudo, tinha sardas pequenas e um tanto fofas demais para alguém de aparência tão abusiva. Os olhos eram azuis, brilhantes como as estrelas. Sei que a comparação soou muito poética, mas seus olhos eram brilhosos demais.
E também estavam vermelhos.

Senti uma tremenda vontade de rir. É claro que ninguém viria a um psicólogo especializado em tratamentos de desintoxicação porque era um puritano ou algo o tipo.
Ele focou seus olhos em mim quando percebeu minha presença. Suspirou fundo e sentou-se ao meu lado. Talvez tivesse chegado cedo demais e não estivesse a fim de papo. Mas ficou ali, entrelaçando os dedos nervosamente, sem mexer qualquer outra parte do corpo. Típico.
Cruzei as pernas e voltei ao meu ritual de ventilador/quero ser. Fechei os olhos novamente, e quando estava quase cochilando, senti algo quente encostar-se a meu ombro. Presumi que o homem ao meu lado havia endireitado a coluna, até que uma voz demasiadamente aveludada e assustadoramente calma falou comigo.

“Eu gostaria de nunca ter que voltar aqui”.
“Eu também não.“ Confessei em um sussurro, ainda de olhos fechados.

“Há quanto tempo você vem?” Talvez ele estivesse nervoso demais e quisesse bater um papo para descontrair. Resolvi ser legal.

- Dois anos, sete meses e catorze dias. – Respondi, abrindo os olhos e focando meus olhar em seu rosto amedrontado de menino, que tentava o tempo todo parecer forte o suficiente para enfrentar tudo. Porém, ele não era. Ninguém é. – Posso te dar as horas e os minutos também.

Ele soltou um sorriso nervoso, e desfez os laços das mãos. Seu olhar procurou o meu, e percebi que ele não era um menino amedrontado ou algo do tipo. Era um homem um tanto perturbado, mas a sua aparência ao acusava. Não sei como sua mãe não o estava acompanhando.

- E você? – Arrisquei.
- Quatro meses. Não me lembro dos dias e nem das horas, mas posso afirmar que nunca foi um passeio agradável. – Ele me estendeu a mão esquerda. – Sou Zachary.
- Florence. – Deslizei meus dedos pela sua mão de dedos longos. Trocamos um aperto de mão firme, e logo eu acabei com o toque.
- Engraçado. Nunca conheci alguém com seu nome. – Comentei, enquanto admirava a fivela de minha sapatilha.

- Também nunca encontrei alguém com seu nome. Florence... – Ele saboreou a palavra com muito mais doçura e ironia que o necessário, e eu tive vontade de rir.

Ele voltou a curvar a coluna, e tirou do bolso da jaqueta um isqueiro, e começou a brincar com o fogo que saia do objeto. Eu entendia o nervosismo dele. Entendia bem demais.

- Você veio por vontade própria?

Eu achei que seria eu quem faria esta pergunta, mas Zachary apressou-se em formulá-la antes de mim. Não sabia se queria responder a essa questão, mas não negava que era o que outro paciente perguntaria ao colega numa sala de espera.

- Não.

Ele esperou, com os olhos fixos no fogo. Cogitei em avisá-lo que olhar muito para o fogo causa estrabismo, ou era isso que minha mãe dizia quando eu era pequena e brincava de acender fósforos.

- Meu pai me arrastou para uma clínica há alguns anos, e agora que meu caso se tornou “estável”, faço as consultas mensais. – Murmurei, pensando se já havia contado isso para alguém. Não conseguia me lembrar.

Ele riu, e eu franzi o cenho. Parou o isqueiro e voltou-se para mim, mexas de seu cabelo caindo sobre seu rosto pálido. De repente, o achei muito bonito.

- Eu vim por vontade própria. Já faz um tempo... Comecei com o psicólogo há pouco tempo. Tudo tem sido muito insuportável, e às vezes a recaída me leva até as bocadas de sempre. A vontade tem diminuído mais rápido do que eu esperava, mas ainda não consigo controlar tudo como eu queria. Gostaria ter o poder de parar de torrar o dinheiro da família nessas merdas... Era mais fácil quando eles nem notavam que eu existia... – Ele enroscou as mãos no cabelo, segurando a cabeça num gesto exausto e culposo. Senti compaixão por ele. Há algum tempo eu também me desesperava por umas gramas de êxtase. Aliás, até poucos minutos eu sentia o peso da família em meus ombros, o peso de não dar orgulho aos pais, a ninguém, nem a si próprio. Eu sabia o que Zachary estava sentindo. Eu sabia exatamente o que dizer, e também sabia que ele não ia acreditar.

Pousei a minha mão em seu ombro. Talvez estivesse protelando muito o ato, mas precisava reconfortar alguém que tinha a vontade de se livrar dos temores, das crises e da alucinação temporária que o fazia feliz, completo, ou talvez só lhe desse prazer suficiente por algumas poucas horas.

- Depois de um tempo, tudo fica bem. Fica mais claro e mais fácil.

Ele olhou em meus olhos com tanta profundidade, que esperei que ele se levantasse e desse-me um soco bem no meio da cara. Contudo, ele apenas moveu o queixo maciço, e formou um pequeno sorriso agradecido com os lábios rosados. Senti um alívio repentino pelo gesto dele em agarrar a minha mão, para logo depois soltar, um tanto desajeitado, mas totalmente sincero.

Zachary e eu continuamos a nos ver depois daquele dia. Ele me pagava um café na Street e eu lhe falava do meu trabalho de redatora na Orange, uma revista nerd para adolescentes curiosos e inteligentes. Zac gostava muito de ouvir sobre as matérias antes que elas fossem publicadas, e nós debatíamos sobre os assuntos mais bizarros que eram pesquisados para a revista.
Depois que eu contava tudo, ele me falava da faculdade. Foi uma surpresa quando contou-me que havia retomado o curso de matemática. Zachary adora números.
Um ano depois ele já estava mais acostumado ao psicólogo, e eu já frequentava a clinica duas a quatro vezes ao semestre. Zachary melhorou seu relacionamento com os pais. Eles já não davam mais dinheiro, e nem perguntavam a ele como ele gastava seu salário de professor. E com o tempo, Zac levou-me para conhecer seus pais e irmãos, e pude perceber o quanto sua família era rica e totalmente aconchegante.

Sempre questionei a mim mesma o porquê de ter sido uma usuária. Minha família era simples, porém sempre fui rodeada de carinho e atenção o suficiente para evitar as festas e os amigos errados. Talvez Zac fosse agraciado com o mesmo, somado ao dinheiro que obtinha a qualquer hora.
Depois de alguns poucos verões, nos mudamos para um "apartamentinho" apertado em Manhattan, que era o suficiente para que nós fizéssemos de lá o nosso lar. Rolávamos de sofá à tapete, fazendo amor até o dia clarear, e pela primeira vez em anos, eu me sentia completa. Sem o prazer fugaz, a alegria momentânea e a adrenalina em fazer loucuras que me poderiam por-me na cadeia.

Minha garganta não estava seca. Eu não suava frio. Eu não ansiava o momento em que usufruiria da droga. Eu sentia a liberdade como uma brisa gelada a bater em meu rosto. Eu vivia os momentos mais simples de minha vida que quase havia sido jogada fora pela própria dona. E eu finalmente sentia que os tons da minha felicidade eram muito, muito mais prazerosos. Eu nunca trocaria o bom pelo nada.
E Zachary estava comigo. Isso era o que realmente me importava. 

outubro 15, 2012

Tato


Nada poderia ser mais prazeroso do que deslizar meus dedos sobre elas. Eu tocava suas brancas e pretas, e ela suplicava que eu continuasse, pedindo clemência nos sons que emitirá. Os grunhidos que perturbavam o meu controle, e roubavam a pouca decência que tinha até sentar-me a frente delas.
Deixei que minha mão esquerda as torturasse. Com uma força mais abrupta, eu a fiz gritar no grave. E depois eu a acometi de delicadeza. O fulgor de nossa relação não cabia em mim. Toquei com rapidez, sugeri movimentos que nem eu mesmo sabia que era capaz de realizar, e no gozo das brancas e pretas, eu fiz uma pausa. Um remake de nosso pecado silencioso. Não deixaria de tocá-las, de fazê-las gritar sob meus dedos.
E a suavidade que preenchia os meus ouvidos era mais que essencial, era perfeita. Eu sofria da decadência de possuí-las. Eu desejava acima de qualquer outro sonho, tocá-las. Eu voltava com loucura, em total transe de paixão. Deixava as minhas marcas feitas pela força de minha vontade, e no fim eu sabia o que era o meu sentimento antes oprimido.
Eu era a música. Eu fazia música. O prazer de tocar minhas teclas estava num pedestal acima de qualquer outro para mim. Eu pecava com o piano, e fazia a heresia soar para todos que quisessem ouvi-la.
Eu amava a música. Amava as pretas e brancas, que cantavam sob meu toque. 

outubro 09, 2012

Adorável clichê



Quem nunca sonhou? Sonhos são relativamente pequenos e anormalmente grandiosos demais para os nossos pequenos corações. E eles sempre mudam. Adaptam-se a nossas recentes escolhas, nossos novos caminhos e objetivos.
O importante de viver hoje, é saber que adoráveis clichês existem, e que sonhos podem fazer parte da nossa realidade. Basta você sofrer o suficiente para realizá-lo, ou como dizem por ai, "acreditar". No fim das contas, tudo valerá a pena.



Evanescence em São Paulo, dia 07 de outubro de 2012.

setembro 28, 2012

Homem Transcendente


Mantenha a curta distância entre nossos corpos. Seja sagaz e possua o que te pertence. Tome para si o mar de meus olhos e construa sobre nós a semelhança do carinho. Supere as minhas expectativas; detone com minhas dúvidas e implante sua fortaleza em mim.
                Beije-me de forma sobrenatural. Resolva os problemas; acarrete todas as consequências e jogue-as para os próximos. Não preciso de perfeição, não preciso riqueza. Dê-me lealdade, e não amor. Dê-me companheirismo, e não pudor.  Salve, salve a indiferença! Deixe-me louca, deixe-me perdida.
                Jogue seus cabelos para trás, e foque seu céu sobre mim. Não deixe de saciar-se. Sugue todas as forças que posso ter. Deixe-me fraca, ao deleite, e depois me renove. Faça do nosso sentimento seu brinquedo. Encha-se de loucura e de torpor. Vá embora, mas volte o mais rápido que puder. Ou leve-me com você para outra dimensão.
                Beije-me, homem de mármore, e devore todas as minhas expectativas e sacie todos os meus desejos. Diga-me se você é um anjo ou um demônio antes de raptar minha sanidade... Conte-me o porquê de um olhar tão opaco, e, depois me presenteie com seu toque eletrizante. Dê-me um beijo hipnotizante mais uma vez, e magnetize nossos corpos.

setembro 11, 2012

"Hana"


Flores podem ser comparadas a almas.
Cada qual exala seu perfume, sua essência única, e, de certo modo, predadora. Suas divergências entre as cores causam uma atração fatal. Um desejo de preservar sua beleza invade nossos mais profundos sonhos, mergulhando serenamente em sua intensa vaidade.
A partir deste ponto, apaixonamo-nos.
E quando um coração sela a promessa de entregar sua vida a esse amor, há como fugir? É desgastante dizer que sim, pois nunca realmente aceitamos nosso destino perverso.
Amar, amar. O problema é sempre o amor. Flores são como almas. Envolventes e diferentes a cada tolo que as escolhe. Não importa a dificuldade de protegê-la. Não importa quanto tempo leve até que ela aceite suas condições atuais e cresça, sempre esperamos por elas. Sempre nos submetemos a elas.
Afinal, todos os esforços são recompensados quando elas florescem. Nascem do mínimo, e alcançam o máximo. Flores são como almas. Indulgentes, fortes e sempre subestimadas por outrem. Nunca realmente levadas a sério, nunca realmente sozinhas. Elas prevalecem em seus campos cheios de irmãs perdidas. Todas parecidas, nunca iguais.
O sol que mareja nossos olhos é a fonte de sobrevivência de todas elas. É a liberdade, a salvação. Porém, em exageros, resseca. Resseca suas pétalas tão bem trabalhadas em cores e formatos. Suas folhas amarelam e ela perde a vida, os sonhos e as conquistas.

Flores são como almas. Únicas e diferentes, e nunca realmente solitárias. 

setembro 01, 2012

Os pêsames de um prisioneiro


A vida faz de mim um morto. Como, bebo, durmo. Como todos os outros seres normais. Porém, a comida já não me apetece. A bebida não me satisfaz, e, eu já não sinto mais o sono pesar nas pálpebras.
Sou morto. Prisioneiro da própria demência. Vago por labirintos de pensamentos impuros de jovens donzelas desnudas das quais jamais vi ou compreendi o porque de balançarem o corpo freneticamente, numa dança descompassada de prazer doentio.
Estou morto. Prisioneiro do sentimentalismo oculto. Arrastado pelos cantos, murmurando o nome daquele que não recordo a face. Face... Murmuro vinganças sanguinárias. Planejo torturas enegrecidas pelo gozo das imagens que projetam em minha mente. Subestimo a minha covardia.
Desejo a morte. Prisioneiro dos dias que não passam. Da loucura que abate um velho desmazelado, que gira em torno de si próprio. Estou brincando de rodar... Até cair. 

agosto 21, 2012

Sobre Sensualismo II


"Sol" foi a primeira nota da nossa música.
Uma colcheia que transbordava a emoção de seus sentimentos, de minha ilusão. Eu deitava na beirada de seu futon, e você ria de mim. Puxava-me para perto, e eu me emaranhava nos seus cabelos castanhos, enquanto você se embriagava no meu perfume, que dizia que te lembrava pasta de dente.
Eramos dois. Ois. Sempre gostei da nossa prununcia. Estavamos colados um ao outro, uma dependência indepente, um amor tão incoerente que resplandecia em nosso peito e fazia nossos olhos brilharem, como o Sol. Sol.
Eu sempre sorri com os olhos, e você sempre todo sério, nunca partiu meu coração. Nunca quebrou minha confiança, nunca deixou de lado minha existência. Juntos nós eramos o Sol um do outro. A nota que transbordava a emoção. E o melhor em nós era o desapego, a falta de medo, a relutância ao sofrimento. Nós "ois" eramos felizes e não desperdiçavamos a coragem infantil da nossa simples sensualidade. A inocência de nossos passos no gramado esmeralda. A todo instante você me protegia dos olhares fugazes sobre nós, e no momento que cedia ao cansaço e fechava os olhos, eu podia contornar seus traços de mármore com minhas mãos, e ter certeza de que você não era parte de uma insanidade minha. Eu podia confirmar que você era um sonho meu, mas tão real quanto os dias chuvosos que se estendem pelo verão perigoso de Janeiro.
Minhas mãos contornavam suas finas sobrancelhas arquedas, seus olhos enrrugados ao simples toque. Seu nariz pontiagudo, pintado de pequenas sardas achocolatadas, que me lembravam pontos perdidos no céu azul. E por fim eu brincava com sua boca, de lábios finos e gentilmente rosados. Eu lhe roubava um beijo. Um choque de proximidade repentina de corpos. Uma eletricidade que fervilhava pelo meu corpo, e paralisava o seu. Os âmbares saiam da toca e você me presenteava com seu olhar mais gélido e acolhedor. Sempre tão sério, sempre tão sensual.
Estavamos perdidos novamente, mergulhando no mais profundo dos sonhos.
E sobre o nosso sensualismo de passos verdejantes, eu conclui que fiquei louca.

agosto 12, 2012

Sobre Sensualismo


Eu gosto de observar suas costas. Nada de inconveniente para você, já que nem ao menos imagina minha existência. Vejo você prender seus cabelos castanhos num rabo-de-cavalo desajeitado mas simétrico. Diferente dos outros, você matem as madeixas compridas, elevando ainda mais a sua beleza. Eu te apelidei de “cara” e você nem sabe da minha existência.
Um dia eu troquei olhares com você na rua. Um beco bem iluminado pelo Sol do meio-dia. Seus olhos melodiosos me atingiram como o flash de uma câmera. Foi um encontro lento, uma confissão de soberania. Eu abaixei os olhos, envergonhada por ter sido pega no flagra, tentando roubar um pouco de você pra mim. E agora você sabe da minha existência.
Um dia depois, nos vimos de novo. Eu com amigos e você solitário, com as mãos nos bolsos do jeans, a mochila pesada nas costas. Estava dando passos largos em direção oposta a minha, porém, mais que do nada, você me fitou. Os castanhos sucumbiram o mel, e foi preciso coragem para não me desviar de seu olhar severo. Poucos segundos passaram até você me presentear com um pequeno sorriso branco. De canto. Sedutor. Sensual. Você tem interesse pela minha existência. Mais que depressa eu te devolvi meu melhor sorriso meigo. E assim nós ficamos, como bobos, sustentando uma relação de olhares e sorrisos que nada podiam significar, porque nem nos conhecíamos! E foi ai que acabei com o nosso “curto” relacionamento, desviando de seu rosto e pondo um ponto final nesta fantasia infantil.
Até o dia que você me deu outro sorriso sensual, e perguntou meu nome.  

agosto 08, 2012

Anulado


                Quando o Inverno chega minha alma esfria. Meus lábios secam e o céu não parece ser tão azul. O mar congela e os sentimentos mais profundos me aquecem, feito fogo. Como pode haver tanta intensidade em dias tão sombrios? Talvez a estaticidade de nossos corpos seja motivo para que o amor se manifeste.
                Há perfume de lavanda impregnado em sua camisa xadrez colorida. E seu sorriso faz meu coração palpitar freneticamente. Deixa o Sol tocar seu rosto, menino bobo. Não leve em conta a cor de meus olhos, porque ela muda diariamente, no constante do infinito. Não acorde agora, e me deixe beijar seus lábios secos em seus sonhos.
                No Verão eu vou te tocar. Vou bagunçar seu cabelo loiro e beijar sua bochecha rosada. Do dourado da sua pele farei meu lençol fresco, e apagarei todas as promessas e mentiras com o castanho de seus olhos. Eu quero te levar para o mar frio e afogar nossos receios e medos. Eu quero te beijar, menino bobo, e dizer que você me faz suspirar.
                Descongele a minha alma e ferva meu coração. Sorria para mim novamente e concerte meus sonhos quebrados pela ilusão. Diga que tudo é verdade e que nossos olhares continuaram a se encontrar.